Mal Francisco fechou os olhos, para tristeza do mundo, e o céu se pôs em alvoroço, porque não é todo dia que recebem uma santa figura por lá, muito menos dessa grandeza. Todos sabiam que ele havia sido o melhor publicitário da Igreja na terra, acolhendo as minorias, defendendo os pobres e a natureza. Foi com calma e humor que exerceu a caridade e a compreensão.
Tristeza na terra. Alegria no céu.
Por isso, o alvoroço. Chamaram o Conselho Celestial para uma reunião urgente, pois sendo uma das almas mais próximas de Deus seria brevíssimo seu percurso. Deus recolheu-se para preparar as palavras de recepção para o Santo Homem. Jesus fez-se presente para abençoar a todos, deixando o Espírito Santo como representante. Sentados, ainda, na abóbada celeste, Pedro, o porteiro que recebe as almas, representantes dos anjos, querubins e Serafins, dos Santos, Profetas e todos os apóstolos.
Pedro foi o primeiro a se manifestar, dizendo que Francisco, mesmo sabedor que seu papado exigia uma certa formalidade às portas do céu, gostava de simplicidade. Disse que a ele estava destinada a porta dos santos e silenciou, ouvindo os demais, pois todos tinham sugestão a fazer.
Decidiram que a recepção seria tipicamente argentina e afinados os detalhes, cada um tratou de sair rapidamente, para fazer os preparativos: comida, bebida, convidados, discursos, música e show.
Na sua chegada, lá estava São Pedro no portal, que o recebeu e levou à presença de Deus, onde ficaram a sós; e dessa conversa só Deus sabe. Depois, Jesus o acompanhou até o grande átrio e lá foi ovacionado.
Estavam presentes amigos e parentes, muitos argentinos. Muitos rostos conhecidos, abraços calorosos, e o reconhecimento a quem partira com uma grande missão, lindamente cumprida. Abraços e beijos depois, discursos emocionados, as luzes começaram a diminuir, as pessoas foram sentando no chão, em frente a um grande palco e abriram-se as cortinas.
No palco Astor Piazola, e seu bandoneón, Gato Barbieri e seu sax, acompanhados da inusitada dupla de vozes de Mercedes Sosa e Gustavo Cerati, além de dançarinos de tango. Foi um espetáculo que há muito o céu não presenciava.
Choveram aplausos e assobios ao final do show, e aos poucos todos foram se dirigindo às mesas, onde se espalhavam iguarias argentinas apreciadas por Francisco: empanadas e choripán, medialunas e alfajor e, obviamente, o famoso dulce de leche, além de um vinhozinho argentino, porque, afinal, vinho é uma bebida sagrada.
Todos queriam falar com Francisco e receber suas bençãos e ele procurou atender a todos, mas em certo momento foi pedindo licença, porque na terra costumava dormir cedo e ainda não se ambientara com o fuso horário do céu.
Seu anjo da guarda o acompanhou, mostrou o caminho dos seus aposentos e lá se foi Francisco aproveitar a calmaria do céu. Mal encostou a cabeça no travesseiro, dormiu, porque sabia que no dia seguinte precisaria acordar cedo e descobrir o que o céu lhe reservava a partir de então.






